segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Juventude: Possíveis caminhos de participação

No relatório final da Pesquisa “Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas”do Ibase/Pólis (2005),relata-se a utilização da metodologia de grupos de diálogo, onde jovens, de diferentes realidades, foram convidados a discutir em grupos algumas temáticas. Um dos temas abordados nas discussões foi "os possíveis caminhos de participação".
Um dos caminhos discutidos foi o do engajamento em entidades de organização social e controle de atuação governamental, como os partidos políticos, ONGS, sindicatos, organizações estudantis e associações. Os jovens apontaram como sendo o caminho da política, marcado pelo poder, força e decisão, o mais sujeito a burocracias e a corrupção, onde há a necessidade da fiscalização, controle e cobrança das ações dos políticos. Ainda sobre este caminho, “(as) participantes concordaram quanto ao papel reduzido dos(as) jovens nas esferas de decisão e ao risco de manipulação dos(as) mais velhos(as) sobre os(as) mais jovens”. (IBASE, Pólis, 2005, p.49). Colocaram ainda que esta forma de participação exige muito tempo do jovem e além disso, os jovens apresentaram um descrédito em relação aos resultados das ações e uma visão bastante negativa da política e descrença nos políticos. De acordo com o relatório da pesquisa em questão, a percepção deste caminho ficou “quase totalmente restrita à atuação dos(as) políticos(as), tanto os(as) que exercem atividade no executivo, como os(as) parlamentares”. (IBASE, Pólis, 2005, p.50), mas que, porém, houve o reconhecimento durante os diálogos, de que este caminho é onde se faz possíveis mudanças mais efetivas e profundas, o caminho mais direto para a conquista de direitos. O relatório nos relata também, o fenômeno do “elogio da participação para outro” que apareceu na pesquisa, onde o jovem acha este caminho de participação o certo, mas não se vê participando do mesmo. Além disso, de uma forma geral, os jovens demonstraram um sentimento de despreparo em relação à participação na esfera política (IBASE, Pólis, 2005).
Outra possível forma de participação colocada em pauta nos grupos foi o voluntariado, onde os jovens apresentaram a percepção principal de que este caminho é o da ajuda aos pobres e da ação social. Houve também a percepção de que esta forma de participação pode isentar o poder público de suas obrigações, mas também “representa a possibilidade de fazer algo de forma independente do Governo: não basta cobrar, é preciso fazer” (IBASE/Pólis, 2005, p 53). Contudo, os jovens demonstraram que somente esta forma de ação “não é capaz de resolver os problemas, principalmente os de natureza estrutural, caso não haja envolvimento governamental” (IBASE/Pólis, 2005 p 53). Ainda sobre o voluntariado, colocou-se que nesta forma de participação há a possibilidade de se ensinar e aprender ao mesmo tempo e alguns percebem mais como forma de exploração. Houve também apontamentos de que este caminho ajusta-se melhor ao tempo do jovem; de que é pouco eficiente para a mudança da realidade e de que está mais ao alcance do jovem (IBASE/Pólis: 2005).
É interessante, ao analisarmos as colocações sobre o voluntariado, constatar que, a partir da reflexão sobre o tema, há, de certa forma, a consciência dos pontos frágeis desse caminho de participação, assim como seus pontos positivos. Isso sugere que, de certa forma, apesar de muitos optarem por essa forma de ação, há uma possível clareza de suas possibilidades e limites para uma mudança social.
A participação em grupos foi um outro possível caminho de participação discutido. Este foi apontado como um caminho de conquista, de respeito e de diálogo, sendo uma oportunidade de expressão de idéias. Outro aspecto levantado foi o de que nesta forma de atuação pode haver mais organização e força, podendo-se também chegar ao caminho do voluntariado e da participação em entidades como partidos políticos e sindicatos. No entanto, foi qualificado como o menos transformador e para alguns “está relacionado apenas ao lazer, aos debates e às conversas e que apesar de atender às necessidades das comunidades, não possui força política” (IBASE/Pólis, 2005, p.58). Uma outra percepção interessante que aparece na pesquisa, é a “de que o grupo possui dimensão formativa e que é capaz de potencializar as ações que cada um pode fazer, considerando-o, inclusive, como forma de conquistar respeito, de diálogo (...) e de visibilidade juvenil” (IBASE/Polis, 2005, p 59).
Podemos, portanto, constatar a relevância do grupo como caminho de participação, na medida em que se apresenta para o jovem como um espaço de formação, reflexão e socialização política e que, através dos laços de amizade, há a possibilidade de formação de uma identidade juvenil. Nessa perspectiva, apesar de não ter “na origem a intenção de uma ação transformadora ou de lutar por direitos, acaba tendo impactos na sociedade” (IBASE/Polis, 2005, p.58).
A escola poderia ser um dos espaços institucionais que possibilitasse o diálogo e debate e entre os jovens, entretanto, a pesquisa nos traz a informação de que isso não ocorre na maioria dos casos, de acordo os entrevistados, o que reflete como um grande problema, pois “(...) o caminho do aperfeiçoamento da democracia passa, inexoravelmente, pela escola, que precisa estar preparada para cumprir esse papel” (IBASE/Pólis: 2005, p74).
Diante dos dados obtidos, constata-se, portanto, uma relevante situação:
(...) grande parte dos(as) jovens deseja participar, entretanto, não encontra espaços que possibilitem tal inclusão. As formas de participação presentes no Estado e na sociedade civil são percebidas como muito distantes da realidade cotidiana dos(as) jovens investigados(as), que revelam ainda, de modo contundente, a existência de espaços interditados à participação. (IBASE/Polis: 2005, p72.)

Nesse cenário, a ação grupal comunitária/voluntária, como pudemos verificar, apresenta-se como uma das formas mais acessíveis de participação para os jovens.
Os dados da pesquisa IBASE/Polis (2005) nos mostram que 28,1% do total dos jovens entrevistados participam de grupos e dentre esses, 42,5% participam de grupos religiosos. A associação religiosa é destaque neste cenário, e “segundo os dados quantitativos, vêm crescendo entre os(as) jovens, sendo um exemplo de organização em que o trabalho em grupo, as relações intergeracionais e o trabalho cívico/comunitário/voluntário estão reunidos” (IBASE/Polis: 2005, p 79).
Gomes, Cristiane P.

Juventude: de quem estamos falando?

Falar sobre juventude não é tão simples, podemos constatar essa afirmação, se questionarmos diferentes pessoas sobre o significado do termo juventude, obtendo como resultado as mais diversas respostas. Alguns poderão oferecer definições a partir de parâmetros etários, outros sobre sua vivência juvenil, outros sobre a realidade dos jovens conhecidos.
Dessa forma, para fins de pesquisa, legislação e definição de políticas públicas torna-se necessário fazer um recorte etário para definir a quem se refere o termo juventude, no entanto, a realidade juvenil é muito mais complexa e plural para ser unificada apenas neste conceito.
A visão mais ampla de juventude que se tem hoje é uma construção dos últimos dez anos. Até a década 1960 a visão de juventude se restringia aos jovens escolarizados de classe média, e nas décadas seguintes o foco passou para as crianças e adolescentes em situação de risco. A percepção mais ampla de juventude que surge nos últimos anos, traz a reflexão de que:

(...) os problemas de vulnerabilidade e risco não terminam aos 18 anos, mas se intensificam a partir daí. Mas também pelo aparecimento de novos atores juvenis, em grande parte dos setores populares, que vieram a público, principalmente por meio de expressões ligadas a um estilo cultural, colocar questões que os afetam e preocupam, diferentes daquelas colocadas pelas gerações juvenis precedentes, e para as quais não havia nem mesmo formulações elaboradas no plano da política. Por essas duas vertentes começaram a ser demandados, propostos, executados, algumas ações e projetos para esses segmentos, agora sob o termo “juventude”. (Abramo, 2005, p.39)

Utiliza-se então o termo “juventudes”, como uma forma de ressaltar a pluralidade da realidade juvenil e não generalizar e simplificar num termo, um universo composto pela diversidade econômica, cotidiana, escolar, pela desigualdade de gênero, de condições, trabalho e projetos.
Gomes, Cristiane P.

Juventude como objeto de estudo

Na década de 90, no Brasil, após anos de uma quase ausência, os jovens voltam a ser tema de investigação e reflexão acadêmica. No entanto, a maior parte das pesquisas e reflexões aborda os sistemas e instituições presentes na vida dos jovens, como escola, família, e situações polêmicas que envolvem os jovens como drogas, sexualidade e marginalidade. Poucas enfocam as percepções juvenis, as formas de sociabilidade e atuação. Neste sentido, a maior parte da bibliografia encontrada sobre juventude diz respeito aos problemas que envolvem essa parcela da sociedade. Poucas tratam dos jovens como atores sociais.
Apesar das restrições e limites descritos, é importante destacar a pluralidade de esferas em que se pode analisar a presença da juventude e sua ação no espaço referido. Aparecem com mais destaque nos relatos a inserção da juventude nas esferas da educação (espaço escolar), do trabalho (inserção no mercado, interesses dos jovens que ingressam no mercado de trabalho, consequências do trabalho - ou sua falta – para a organização da juventude, relações com o sindicalismo) e da cultura (identidades, formação de tribos/gangues/galeras, relação com os meios e produtos de consumo culturais, ocupação do espaço urbano através dos instrumentos identitários/culturais).
A importância de pesquisas sobre o tema não deve ser ignorada. No Brasil a população entre 15 a 24 anos soma 34 milhões de pessoas que, em grande parte, se encontra em processo de exclusão econômica e marginalização social (IBASE/PÓLIS, 2005). Importantes pesquisas como “Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas” (IBASE/PÓLIS, 2005), nos levam a refletir sobre as condições sociais do jovem e sua atuação nas esferas públicas, mostrando que um dos grandes desafios democráticos no Brasil atual é a participação dos jovens nos assuntos públicos.
Em 2005 surge a Secretaria Nacional da Juventude e o Conselho Nacional da Juventude, ligados ao Governo Federal, mostrando mais uma vez a importância que esse assunto tem demandado. O esforço para conhecer as diferentes realidades juvenis e suas demandas torna-se assim fundamental quando se pretende elaborar políticas públicas para esta parte da população. Dentro da proposta de se conhecer as diversas realidades juvenis, não podemos ignorar as múltiplas formas como os jovens se organizam social e politicamente para que estes possam ser também protagonistas dos projetos públicos que lhe são destinados.
Gomes, Cristiane P.